O impacto da pandemia no setor cinematográfico
- Guilherme Alves

- 18 de nov. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 23 de nov. de 2021
A rotina modificada dos profissionais e consumidores de audiovisual em período pandêmico
Em 2020, após um começo promissor nas bilheterias, o cinema teve suas salas de exibição fechadas em março por conta da pandemia do Covid-19, sendo assim um dos setores mais afetados. De acordo com o Sistema de Controle de Bilheteria (SCB) ainda funcionavam cerca de 3.381 salas na primeira quinzena do mês de março, em abril esse número caiu para a média de cinco salas em funcionamento. Segundo um estudo da Filme B, site especializado em análise e comportamento do mercado audiovisual, a bilheteria do cinema caiu cerca de 70, 4% no mundo todo. No Brasil este número é ainda maior, com 86%.

Aumento na procura por serviços de streaming
No mesmo período em que as salas de exibições se encontravam fechadas, a procura por plataformas de streaming aumentou, “tem a netflix, tem a HBOMax, Star+, Globoplay, tem o Amazon prime videos, que têm muito dinheiro, e catálogos extensos, que sempre são atualizados, ficando difícil para o público escolher, e que muitas vezes passam o tempo de um episódio para decidir”, comenta o criador do site Omelete, Marcelo Forlani.
Segundo dados do Kantar Ibope, divulgados pela Uol, na coluna "notícias da tv” em janeiro de 2021, de todas as televisões ligadas no Brasil em 2020, 13,1% estavam sintonizadas no conteúdo por streaming no período das 7h até à meia noite. Esse número se fosse transformado em pontos de ibope equivaleria a 6.0, ficando a frente de SBT (5.1), Record (5.8) e bem próximo da TV paga (6,3) no mesmo intervalo de tempo.
Os profissionais de cinema em tempo de pandemia
O impacto da pandemia na produção do cinema gerou demissões de funcionários desde a produção de um filme até os funcionários do cinema, principalmente aqui no Brasil, onde o incentivo ao cinema está cada vez menor. “Vai do carpinteiro que ajuda a construir o cenário, as pessoas que ficam na máquina de costura fazendo o figurino, o diretor, os atores, os roteiristas. é realmente uma indústria, e se não dá incentivo, está tirando o emprego de um monte.”, Forlani comenta.
Assim como outras profissões, os críticos de cinema passaram por mudanças em seus trabalhos, havendo uma flexibilização do trabalho que se tornou atrativa e positiva para alguns, conforme conta o crítico de cinema Celso Sabadin: “A gente recebe o link. Então evita o deslocamento, permite acordar um pouco mais tarde, ou ver o filme em um outro horário”. Embora permita esse conforto, há também sua parte ruim, como complementa Sabadin: "Você não toma contato com o filme em sua magnitude e amplitude maior que é a tela de cinema, que nos permitem as condições perfeitas de imagem e som”.

Paralisação e adiamento de produções
Com tudo paralisado, não restou opção às empresas cinematográficas a não ser paralisar e adiar suas produções, o que resultou numa mudança de calendário em grande escala. “Adiar um lançamento é uma coisa pesada, porque é um efeito dominó. Não se adia só um filme, mas todos os outros que já estavam escalonados. Então a saída é recorrer para o virtual”, diz o crítico.
Por conta dessas plataformas, salas de cinema foram fechadas, como aconteceu com algumas do Itaú. “O Itaú anunciou o fechamento dos seus cinemas em Salvador, Curitiba e Porto Alegre, porque está dando ênfase para a plataforma. E é uma pena, porque fez isso um mês depois de anunciar um lucro líquido de 120% a mais que no mesmo período do ano anterior”, ele complementa.
Retomada de público nos cinemas e lançamento simultâneo digital
Com a iniciativa de superar o período de crise causada pelo lockdown e manter as exibições,em julho de 2020, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) autorizou os lançamentos de obras audiovisuais em salas de exibição do tipo drive-in, sendo necessário seguir as regulamentações. E com as produções cinematográficas adiadas, em setembro de 2020 houve a reabertura das salas com o festival de filmes clássicos, com as medidas protetivas contra a Covid-19, além do uso de máscara e do álcool em gel, também houve limitação de pessoas por sala para manter o distanciamento social.
Com tantas restrições e a falta de segurança em sair de casa, a maioria do público permaneceu consumindo conteúdo audiovisual por plataformas digitais. Dessa forma, uma das maneiras das grandes empresas recuperarem o dinheiro investido em produções foi fazer ao mesmo tempo que lançava os filmes nas salas de cinema, o lançamento simultâneo via streamings, como aconteceu com a Disney, que lançou Cruela, em maio e Viúva Negra, em julho em sua plataforma digital, cobrando um valor a mais dos clientes que quisessem assistir. “A ideia em si era boa, mas pelo preço se torna um absurdo. 70 reais para assistir um filme em casa? Não faz sentido algum, sendo que por esse preço dá para ir ao cinema e ainda sobra dinheiro”, fala Alessandra Silveira, amante de cinema.
A ideia do lançamento simultâneo não durou muito e até causou dor de cabeça a Disney, que acabou levando um processo da atriz Scarlett Johansson ao alegar que em seu contrato não existia acordo para esse tipo de exibição junto ao cinema.
A força do cinema
Embora existam novas formas de distribuição de conteúdo audiovisual, o cinema se mantém forte. “A gente já passou por outras transformações: a chegada do VHS, depois o DVD e o Blu Ray, agora os streamings, mas a experiência de ir ao cinema de uma forma coletiva, depois discutir o que achou do filme, da atuação, tudo mais, acho que isso segue sendo algo muito gostoso”, relembra Forlani.
Para alguns, os streaming concorrem diretamente com as salas de cinema, mas para outros, a disputa do cinema é outra. "Um filme em cinema concorre com a balada, concorre com sair com os amigos, porque há entretenimento em que você está afim de ficar em casa (streamings) e aqueles em que você prefere sair, como o cinema”, completa Celso Sabadin.
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